Homenagem

Dona Lázara. Brasileira. Negra de cor. Vocabulário simples e origem comum. Humilde de vida e de alma. Conheceu a viuvez, a maternidade, os netos e os bisnetos – afirmo que foi um prazer, querida bisa. Morreu quieta, aos oitenta e nove anos. Acredito que não tenha sentido medo, era corajosa como eu não sou. Passou despercebida, tanto pela morte quanto pela vida. Idosa. Silenciosa. Não foi notada, sabe? Não pela sociedade, mas eu vi você, Dona Lázara. Conheci seus anéis, seus esmaltes, seus vestidos coloridos. Entendi o olhar simplório e os traços da idade que insistiam em tomar seu rosto. Senti orgulho, da mesma forma que você sentiu quando nos encontramos pela última vez – essas meninas da Marina são bonitas demais. Era pura poesia – bruta e original. Artistas não irão criar obras a seu respeito, mas sei que merece um livro completo. Clarice ficaria feliz em ter uma epifania quando se encontrassem e Chico iria compor linhas sobre sua sabedoria. Quem dera se tivessem cruzado caminho contigo, mas eles não cruzaram, eu cruzei. E sei que o mundo continuará sendo o mundo, só que mais vazio sem você.

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